sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Hell

É calor dentro de casa, calor na rua, calor no corpo, calor na mente, calor sob e sobre as saias também. O calor é o caos da sociedade, é o motivo da sede e do desperdício de água, do uso abusivo de climatizadores e dos apagões de energia, é o fim do mundo.

Quem não tem piscina caça com chuveiro e por isso agora pouco terminei meu terceiro banho diário. Com o tempo a gente vai descobrindo técnicas de adaptação às mudanças climáticas. O verão é a única estação do ano em que faço a barba todos os dias, uso este artifício para ficar mais tempo debaixo do chuveiro sem me preocupar e sem jogar água fora inutilmente. Faço devagar, pra cima e pra baixo até desligar o chuveiro com os dedos enrugados e sair de cueca do banheiro para escrever um texto sob um ventilador de teto que já teve seus dias de ouro, mas que hoje não passa de enfeite. Agora estou suando cântaros, pronto para o próximo banho. Mas se eu já me barbeei, quais pelos irei cortar?

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Wayne diz:

toda cidade, cidade vai
cidade-garça, cidade-farsa, cidade-dela
nas fotos ou jornais
cidade-guerra, cidade-estado, cidade-maravilha
só cidade, mocidade
a nós, ao rei

toda parte um dia cai
cai império, cai a casa, cai a chuva
verdes e maduras
cai o mundo, cai o dólar, cai o peito
só cai, Maccai
a eles, a eles

tente de novo sem calar o povo
o povo já é calado
fica fácil
assim
é difícil, né?
essa história de lisura

vamos de carro vamos pai
carro-chefe, carro-forte, carro-pipa
“pneu furou, acenda o farol”
carro-choque, carro-bomba, carro-zero
de carro, carro-céu
a mim e a você

vá em frente, a vida é sua
mas já deve saber
ninguém daqui sai ileso
aceso, o mesmo
pois sou cowboy Wayne
e ganho até de mim mesmo

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Hoje foi menos ontem que amanhã

Fui buscar uma escada no porão pra trocar uma lâmpada queimada na varanda. Tive que descer até lá, pois não tem mais cadeiras, os cupins roeram toda a madeira nestes pouco mais de quinze anos que eu não voltava à casa de campo do meu avô celeste. Desci o último degrau e tropecei em uma lata de tinta, pintei o chão de azul metálico. Fiquei me perguntando como a tinta estava fresca se eu era o único que sabia existência da casa e a abandonei anos. Quando estava quase chegando a uma resposta mais ou menos possível fui acordado a tapas e gritos pela minha mulher. Perguntou por que eu insistia em trazer garrafas cheias para a cama e, coberta de cerveja, começou a me mandar para fora de casa e aí eu matei a charada da tinta fresca derrubada, levantei satisfeito.

Não sei quantas vezes ela vai aguentar, nem sei mais quantas vezes fui chutado de casa. Sempre finjo não me importar, fico dando umas voltas pela cidade de manhã cedo e ela sempre me encontra no mesmo lugar, sobre a ponte observando os barcos atracados, e pede para eu voltar, eu volto. Abro a porta e não falta nada em casa, abro a geladeira e sinto falta das garrafas que ela confisca. Talvez seja esse o motivo de eu não dar presentes a ela, sempre preciso repor o meu estoque de cerveja que ela joga fora. Ainda desconfio que ela usa para subornar o fiscal alcoólatra da empresa de TV a cabo por causa de nosso gato persa.

Isso já passa das nove horas da noite, o noticiário já acabou e ela está assistindo aquela novela chata que sempre acaba com o ferramento do vilão. Eu penso “eu amo essa mulher”. Depois eu penso “eu amo esse som do Neil, ela que me desculpa, mas vou cavalgar”. E passo mais uma noite fora, observando a lua.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Inspire-me, Blue

Não consigo mais escrever. É essa merda de twitter. De prolixo passei a breve. Em vez de argumentos tenho agora pequenas ideias aleatórias. Nem pra faculdade escrevi esse semestre. Tenho sorte pois escrevi muito antigamente. E, por isso, usei textos antigos pra passar de semestre. Como se fosse difícil passar de semestre na FAC. Mas tá difícil escrever. Desativei o blog por isso. Ativei agora pra tentar voltar. É mesmo culpa do twitter que cria manias. Economizo vírgulas e extrapolo pontos.

Mentira. Tudo mentira. Tudo desculpa. Eu só não tive vontade. Não tive vontade até esses dias. Porque nunca tinha visto olhos azuis tão provocantes. Azuis. Escuto um blues e lembro de ti, dos olhos azuis e do copo na mão. E do riso dissimulado. E da saia não comprida e não curta. E do tchau que não foi pra mim. Realmente, não é culpa do twitter. Então me siga lá. @flaubihoos. Preciso comer. E depois ver esses olhos azuis. Pena que não será hoje.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Antes de tudo

Quando acordei hoje, já não era mais de manhã. O ponteiro do meu relógio, leia-se celular, marcava 1:26 p.m. e o almoço estava pronto. Lembro aqui de uma das maiores vantagens em morar com alguém que saiba e goste ou sinta obrigação ou até que se sinta intimidado em cozinhar, comida não-congelada e macarrão não-instantâneo. Voltando, acordei e vesti minha calça de abrigo mais feia, minha camisa de manga comprida mais esgualepada e meu blusão mais embolado, só faltou uma meia furada mas aí lembrei que dia desses, acho que num sábado quando chovia, eu fiz uma limpa no meu guarda-roupas.

Você não é inocente, mas não é má. Achei que você era a revolução quando você era a guerra. A guerra fria, guerra santa, que não matou ninguém, mas deixou lesos, muitos lesos.

E quando as cores que circundam por aqui me fazem sorrir eu vejo que são 3 da manhã. Uma vez eu tinha medo desse horário, foi logo depois de eu ter assistido O Exorcismo de Emily Rose. Que bobagem, tudo que eu começava a mentalizar quando olhava para o rádio-relógio pouco antes das 3 era ele despertando sozinho ou coisa parecida, que bobagem, que adolescência.

Se eu uso óculos escuros quando falo contigo não é por medo de te encarar nos olhos, mas de que eles me entreguem. Talvez assim você não me pergunta por que meu olhar anda cansado e eu não precise te mentir pra não estragar a surpresa de que passei a noite passada inteira compondo canções de amor melosas que deixariam úmidas qualquer mulher da terceira idade fã de Roberto Carlos.

Amor, enxergo agora eu e você num filme. Eu sou o cara de braços tatuados, debilitado e com brinco na orelha que pede com todo o amor do mundo que você não morra comigo. Você é delicada, com um sorriso inocente e uma mente enorme, benévola, até demais, mesmo pra mim. Parecemos felizes, mas pra variar, eu destruo nosso lar.


Eu ainda morava longe de todos, ainda não tinha a noção do perigo, ainda não tinha voltado, ainda não tinha me arrependido, só aprendido.

Setembrino

Abri meu caderno e a única frase escrita em todo ele era “setembro, setembro negro”. E eu andei equivocadamente pensando que poderia ser um daquele mês que só servem para serem esquecidos sem antes rever os fatos. Ironicamente comecei a pensar como um mês que deve sempre ser lembrado, um mês de libertação, de crescimento perante o lado sórdido da vida.

Quinze dias antes ele chorava de rir, levava o afago do momento grudado no coração e jogou para as cobras o futuro. Já estamos no nono mês do ano, mas quando falam em 2009 ele só se lembra de um único mês, que ofuscou a todos os outros oito. Esqueceu de toda uma vida, mais de duas décadas, e concentrou toda a sua história e felicidade naquele mesmo mês, um longo mês de sossego e gozo.

E definitivamente não existe nada mais efêmero que o estado de uma alma. Agradeço a quem me criou, não tenho bem certeza se foram os deuses ou se foram simplesmente os espermatozóides de meu pai, mas seja quem for eu agradeço por te me deixado sempre com um presente brilhante que desguarnece um passado desagradável.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Útil Desagradável

Fiz um juramento junto com um amigo meu da época de segundo grau de que um dia iríamos transar com uma só mulher ao mesmo tempo. Fomos adiando nosso tratado e chegamos até a esquecê-lo por um tempo, mas quando surgiu a oportunidade eu, sempre muito franco, contei o que ia fazer para minha esposa, que sempre compreendeu minhas necessidades.

Ela me olhou profundamente e, com um sorriso seco me respondeu:
- Claro, meu amor. Como você adivinhou que eu sempre tive vontade de transar com dois homens?

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Wagner!

Quatrocentos cruzeiros
a voz de dentro treme e bebe
a última vez que os dentes de alho cairam foi no verão
que verão
que inverno
muita água limpa
de fato nada tão limpo quanto natural

que cachoeira!
cristalina a sua fonte
cristalina a sua dona
loura ensolarada em olhares esmeraldinos num corpo nota mil

all you have to do
foi que eu não respirei mais no fim de semana
mas isto foi só em um dia
onde os grilos não se ouviram

notas? só musicais
do verde
do doce
e do zebu
pois o sol já não dorme
e nós dormimos menos que o sol

you can be the sinner and I'll be the sin
mesmo não existindo pecados
não quando tudo está liberTado

Sem data

Embaixo da tua saia foi meu lugar preferido
durante meses foi assim
e eu sujava teus lençóis enquanto lavava tua alma
e te comprei um mundo novo que fugia da juventude alienada

foi tudo vinho

um dia veio o asco e eu escorreguei
e no mesmo lugar em que te levei uma porção de vezes
tu me deixou secando na tormenta
sem unhas
e sem dentes

norte preto
leste preto
sul preto
oeste preto
sorriso branco, no fundo dos pensamentos
um sorriso branco
rindo, mas
não pra mim

ainda bem!

terça-feira, 30 de junho de 2009

Debut

E então eles abriram as cortinas, mas ninguém ainda os viu

Pois o essencial, aquele invisível para os olhos, ocupava o palco inteiro


Depois ela entrou

E ele se perdeu no caminho de volta

Queria mais uma dose, mas o whisky tinha terminado


Estava dentro dos lábios dela.