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quinta-feira, 4 de junho de 2009

Um Estranho Pura-Vergonha

O cara entrou no ônibus na minha frente, óculos de grau, jaqueta de couro muito mais larga que o tronco e cabelo curto enrolado. Não tinha mais lugar para sentar, o ônibus já estava na penúltima parada do Campus e no horário de saída das aulas, passei a roleta e fiquei de pé, com a mão no puta merda. Na última parada antes de sair da universidade o cobrador soltou, rindo, o bordão “um passinho a frente aí pessoal”. Baita filho da puta, ao falar com escárnio por um momento eu desejei que entrasse um ladrão e apontasse um 38 no rim do motorista sem mulher.

Naquele ônibus lotado encontrei mulheres lindas que me olhavam, mulheres lindas que não me olhavam, mulheres simpáticas que correspondiam meus olhares e mulheres solteiras encalhadas que não tiravam os olhos de mim. Resolvi ir um pouco mais pra frente, pois estas são as piores, fugi delas e cheguei perto do cara. Diferente de mim, para ele ninguém olhava, nem ele mesmo tentava se olhar pelo vidro, passou o trajeto inteiro despercebido dirigindo seus olhos para o chão, cabeça baixa como se tivesse medo do mundo.

Quase perto da minha parada liberou um lugar na frente do cara, uma moça tinha se levantado para descer e sobrou o banco do corredor. No assento da janela tinha uma garotinha introspectiva, cara de querida, super quieta, super na dela. O assento ficou desocupado por aproximadamente um minuto e o cara não sentou, o ônibus continuava cheio, ainda havia aproximadamente umas 15 pessoas de pé e aquele cara não sentou com um banco na sua frente, talvez ele teve medo de ficar do lado de uma garota, foi a única coisa que eu pensei no momento depois de analisar os trejeitos do nerd. Ele parecia que não iria sentar mesmo quando uma mulher que estava atrás dele pediu licença, perguntou se ele ia sentar ou não, ele não respondeu, apenas abriu espaço para a mulher sentar.

Mais uma parada à frente e aconteceu a mesma coisa, ao lado do banco vazio ficou uma garota, ele não sentou, passei na frente e sentei, mesmo sabendo que já teria que levantar para descer. Naquele momento a minha cabeça já pensava que ele tinha problemas, tais como hemorróidas ou esfíncter frouxo, mas antes de eu terminar meu pensamento a respeito do cara, um sujeito idoso levantou do assento, aqueles assentos únicos e o cara rapidamente tomou o lugar do velhote. Sentou porque não tinha ninguém do lado, não haveria de ter, óbvio, entretanto permaneceu o tempo inteiro de pé apenas por vergonha de dividir o lugar com alguém desconhecido.

Há mais pessoas assim na cidade do que a gente imagina, os antônimos dos sem-vergonhas, são os pura-vergonhas que possuem aquela timidez doentia ou talvez nem seja isso, de repente é um ódio mortal da sociedade e das pessoas, misantropia aguda, ou receio de mulheres, não sei ao certo, achei melhor descer daquele refrigerador ambulante e ir pra casa me esquentar na frente da lareira, porém no meio do caminho me lembrei que não tinha lareira. Que merda.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Ex-Tendências

Quando eu te corrigia não era pra te reprimir e me achar o maioral ao tirar proveito de seus defeitos bisonhos. Sempre tive essa tendência ao perfeccionismo, desde a gestação de minha humilde mãe. Quando ela estava no oitavo mês de gravidez eu já estava pronto para o parto, porém quando estava saindo eu falei para o médico me deixar por mais um mês ali dentro do útero, pois ainda não havia aprendido a dar nó de quatro pontas no cordão umbilical.

Também tive tendência ao amadorismo. Certa vez eu era tão fissurado por certas sessões de certos sites de certos conteúdos adultos que eu resolvi fazer mais do que simplesmente o tradicional, então entrei no ramo e comecei a participar. O início foi fabuloso, tinha garotas mudas, festas com piscinas, carros com hidromassagens e aeroportos com bacon. Entretanto, após uma briga com a minha tendência ao perfeccionismo, o final dessa história acabou sendo trágico para minha conta bancária – todavia, foi gloriosa para meus advogados capitalistas, sedentos por dinheiro – devido aos inúmeros processos de violações de direitos autorais de que eu não segui a cartilha.

A primeira semana foi muito difícil de se acostumar a viver novamente a vida medíocre que os brasileiros evangélicos agradecem ter, pois segundo eles, poderia ser pior, tem gente que não tem isso, tem gente que não tem aquilo e coisa e tal. Mas e quem não tem nada? Deveria agradecer por quê, se nada poderia ser pior? Teoria furada essa! Mas voltando assunto, a primeira semana foi dura como o frio do Alaska de 77, não pude nem me re-acostumar aos poucos porque perdi tudo de uma vez só, já falei que esses advogados capitalistas são sedentos por dinheiro? Pois é, tive que entregar tudo à vista, sem parcelas, pra não ir de mudança ao xilindró e ter minha vida publica desossada.

Ora essa, e eu que achava que a expressão “da glória à ruína” fosse somente metáfora de livros. Inocência. Tive essa tendência por alguns alarmantes anos. Depois que perdi tudo, fui para o México, beber la tequila, tragar la marijuana e almoçar panochitas. Fiquei conhecido lá como “El Forastero Mariachi”. Foram semanas de glória até a fatídica data de minha prisão (12 de julho de 1999) por posse ilegal de palhetas etílicas. Não sabia que os mexicanos tinham preconceito com palhetas, tal Brasil e Argentina, dançarina de axé e roupa, político e vergonha na cara, Hitler e judeus.

Voltei ao Brasil no dia seguinte, numa antológica fuga da prisão da cozinha da casa do delegado. A primeira coisa que fiz foi ligar para meu filho, Aristides, porém fui preso, sim, no primeiro dia em que retornei. O patrulheiro que me algemou alega que eu estava destruindo um telefone público quando eu estava apenas tentando colocar a ficha telefônica para efetuar a ligação. Acontece que os orelhões tinham mudado e agora as ligações eram feitas através de cartões. Apertei tanto a ficha na entrada que acabei, sem querer, soltando um parafuso que prendia a lataria do telefone, que foi parar no copo de sukita do poodle rosa de uma socialite loira metida a besta, e que acabou resultando na morte do cão bicha.

Me soltaram no mesmo dia, foi constatado um caso clínico de inocentius chronicus de acordo com o diagnóstico da circunferência de minha cabeça. Caminhei pelos bairros de Passo Fundo por dias e noites, sóis e chuvas, até tirar da minha cabeça essa idéia de tendências. Percebi, com toda a sagacidade dos marcianos de Júpiter que tendência era algo que só funcionava na novela das oito, e resolvi ser eu mesmo, porém criei, involuntariamente, uma tendência em ser original. E morri.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Pane Seca e Olho de Vidro

Em alguma madrugada, entre maio e junho, ou julho (abril?) de 2007.


O ônibus atrasara 15 minutos, o que poderia ser considerado uma vitória, geralmente os atrasos eram de meia hora. Eu viajava lendo Que Loucura! de Woody Allen, grande figura, quando o motorista resolve parar e encostar o ônibus na beira da estrada, e desligando as luzes, o que me enraiveceu até eu descobrir que as luzes apagadas eram o de menos.


Vinha concentrado no livro e ao mesmo tempo concentrado em pensamentos negativos. Andei imaginando que mais dia menos dia eu iria presenciar um episódio de ônibus quebrado ou assalto ou seqüestro ou o diabo a quatro, viajo tanto de ônibus que isso me parecia inevitável acontecer, afinal ocorre tanto dessas coisas hoje em dia. Só não imaginei que esse capítulo estaria tão próximo, o ônibus parou e eu me direcionei até a cabine do motorista para me inteirar do que estava havendo.


Pane seca! Como assim pane seca em um ônibus? Como que as pessoas podem ser tão incompetentes a ponto de deixarem o ônibus sem diesel? Fiquei me perguntando isso, parado, no escuro, enquanto um cara ao meu lado tragava seu cigarro e ria de tudo. Não que não fosse engraçado, mas não é algo que você anseia, algo do tipo “oba! vou viajar hoje, tomara que o ônibus quebre!”, e era assim que aquele cara se comportava, desfrutando ao máximo de todos os momentos como se fosse tão ou mais prazeroso que um churrasco de domingo.


Por sorte do acaso, um outro ônibus da mesma empresa estava atrasado e acabou passando por nós aproximadamente 5 minutos após o ocorrido. Pensei: Beleza! Vamos de carona! Entrei correndo no ônibus, joguei minha mochila nas costas e desci correndo feito uma criança da 3ª série que acaba de ouvir o sinal do término da aula, mas acabei me frustrando ao saber que o rumo era totalmente ao contrário. Resolvi voltar ao ônibus e esperar, afinal como mecânico sou um ótimo agricultor.


Logo que me sentei o motorista entrou novamente, tranqüilo demais para o meu gosto, e avisou que estava indo ao posto com o outro ônibus e que não demorava. Explicou o funcionamento do painel, aonde ligava e desligava as luzes, abria e fechava a porta e etc. Então saiu, olhei para a janela, tudo escuro, estava dentro de um trambolho com uma luz intermitente no meio da estrada, no meio do nada com apenas mais duas pessoas.


Senti-me indefeso e divaguei sobre minha potencial capacidade de prever ou de fazer meus pensamento tornarem-se reais, mas resolvi me agrupar com as outras duas pessoas e fazer um social. Havia um rapaz, um pouco mais velho que eu, e uma mulher, mais velha que eu, mas nem tanto, devia estar ali na casa dos trinta anos. Belos trinta anos, por sinal, mas isso não vem ao caso, seria perfeita se tivesse os olhos menos atraentes um ao outro e se o olho esquerdo não fosse de vidro.


O cara que estava junto falava pouco, e eu também falava pouco, apenas a mulher falava e ambos nós dois concordávamos com tudo que ela dizia. Uma hora ela começou a se queixar de que pior de tudo que estava acontecendo é que ela estava de ressaca. Contou detalhes da noite anterior, que bebeu três litros de conhaque com suas amigas e que tinha um amigo viciado em maconha. Relatou ela, que o amigo fumou cinco baseados do seu lado e, por isso, ela passou mal, como se os três litros de conhaque fossem coca-cola. E então começou a falar que nunca tinha usado drogas, que bebia pra caralho, mas jamais sentiu vontade de experimentar aquilo que o diabo e os artistas gostam.


Já não agüentava mais permanecer confinado naquela joça, sentei no degrau da escada próximo a porta e fiquei olhando para a porcaria dos detalhes do ônibus. Notei a presença de alguns filhotes de baratas entrando e saindo pelo câmbio furado. Quando levantei tive que me sacudir aos montes para tirar toda a poeira que se acumulou enquanto estive sentado.


Passados uns trinta minutos, o motorista voltou com o diesel. Abasteceu o tanque e resolveu o problema, com alguma relutância do ônibus em voltar a se mover, mas com insistência e sangramento a carroça acordou.


Chegamos em Carazinho e outra demora. Dessa vez o motorista precisava descarregar umas encomendas e uns pneus alojados no bagageiro. Não entendi como que pode demorar tanto para tirar algumas coisinhas de dentro, mas tudo bem, nesse meio tempo passeei pela rodoviária, observando pessoas estranhas. Tinha um cara do Correio do Povo ali – desses que levam os jornais para outras cidades – que não havia apelido mais propício senão Mr. Bean, nunca tinha visto ninguém mais parecido com o personagem idiota desde um filho de um ex-professor meu.


Passaram-se uns vinte minutos e seguimos viagem, finalmente estaria chegando em Passo Fundo com duas horas de atraso, voltei a atenção ao Que Loucura! e quando menos percebi tinha chegado. Ao descer na rodoviária, o cara rumou para o lado oposto de onde eu estava indo e a mulher se deliciava aos beijos do namorado. E eu, fui logo pra casa, tinha lasanha para a janta.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

"Cara, a velha era muito louca"

Eu tinha umas mensagens, assim, bem legais, bem bacanas, tipo eu olhava e me regozijava, de tão bom, sabe? Mas aí eu não podia guardar mais essas mensagens, cara, tipo, tinha um pessoal lá perto de casa que se enxergasse uma lasquinha só, cara, deus sabe lá o que ia acontecer da minha vida, cara, assim, não que eu não tenha juízo, ache mcdonald’s tico mole e não agüente o sotaque bicha do Caetano Veloso, mas todas esses lances, assim, desse jeito louco, não dá pra agüentar. Dia desses, meu, eu tava com um amigo meu, assim, amigo mesmo, desde os tempos de bodoque, e a gente tava na parada de ônibus, esperando o ônibus né, e aí nisso chegou uma velhinha, devia ter no mínimo uns 82 anos e perguntou né, pra esse meu amigo se ele tinha um cigarro, tipo, a velhinha tri mal, muito engraçado. Aí ele respondeu que ele não tinha, ele não fuma mesmo né, aí tipo, não sei que deu que a velha se pirou, cara, e ficou indignada né, perguntou pra ele por que ele não tinha, cara, a velha era muito louca, aí ele respondeu que ele não gosta de cigarro, e nossa, a velha se pirou mais ainda, parecia algo de outro mundo alguém discordar das idéias da velha, aí a velha né, perguntou, cara, como é que tu não gosta? não consigo imaginar uma coisa dessas, dizia ela, ta ligado? Aí, bah, muito engraçado cara, meu amigo ainda dava trela pra mulher, respondeu tri na paz, que ele não gostava do cheiro do cigarro, que incomodava ele e tal, ele não curtia, sabe? E aí, bah, nem acredita, a velha teve tipo uns chiliques, ta ligado? Nossa, coisa de filme, ela pulava, cara! A velha de 82 anos pulava, e alto ainda, uns dois tijolos, aí tipo, perguntou por que ele não gostava do cheiro. Velho, aí foi gota d’água, a velha era muito chata, nem esse amigo meu que é o cara mais hare-krishna do mundo se agüentou, velho. Ele chegou, olhou pra velha, cara, e começou a tipo, berrar no ouvido dela: “eu não gosto por que é fedido, ta entendendo? Se eu acho que algo tem cheiro ruim é porque é fedido, e eu não gosto de coisa fedida! Tu quer algo fedido? Por que não come merda então, sua velha, ignóbil, cabeça de guidão, troxa, palhaça, cérebro de porquinho-da-índa, burra pra burro! Não me apareça mais pela frente!” Cara, demais, bem na hora que ele terminou a frase o ônibus, tipo chegou, tipo bem na hora ta ligado, aí a gente subiu e sei lá, sei que a velha tava parada, ficou tipo estátua, saca? Não sei o que aconteceu, mas que foi bala, foi bala!

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

26 de Novembro

É impossível se lembrar de todos as datas do ano, são 365 dias, a maioria deles comuns, a maioria deles passam despercebidos pela rotina em que todos vivemos. Eu só costumo lembrar das datas mais importantes mesmo, aniversários de parentes e feriados, porém há 2 anos atrás o dia de hoje, 26 de novembro, passou a ter um significado especial, mesmo não ter sido proclamado nenhum feriado e nem ter nascido algum primo, irmão ou qualquer outro parente meu.

No dia 26 de novembro de 2005 eu assistia em casa com meu pai, Grêmio e Náutico, um jogo que eu acreditava que seria fácil, um jogo em que certamente o Grêmio, meu time do coração, voltaria para a primeira divisão do futebol brasileiro, lugar do qual nunca deveria ter saído. A partida já tinha sido iniciada e mesmo vendo um futebol digno de várzea eu mantinha a certeza que aquele era um jogo ganho, quase que para cumprir tabela, jamais passou pela minha cabeça mesmo que por um milésimo de segundo que meu time não subiria para a primeira divisão.

Era um ensolarado dia de sábado, eu vestindo uma camiseta do Grêmio de 1995 que me lembrava dos tempos gloriosos do tricolor gaúcho. Nem me dei ao trabalho de sair para ver o jogo na rua ou ficar com a visão fixada na televisão fazendo mandinga, a certeza que o Grêmio venceria era absoluta, posso dizer que comecei a assistir displicentemente a partida. Então, ainda no primeiro tempo, um pênalti a favor do Náutico, foi o primeiro dos muitos sustos e apavoramentos que aquele dia me causou. A partir daquele momento comecei a assistir com mais atenção ao jogo, encarei o jogador do Náutico como se eu estivesse prestes a presenteá-lo com uma maquiagem de cor roxa em seu olho, e deu certo. O jogador da equipe pernambucana chutou a bola na trave e eu dei o meu primeiro pulo dos incontáveis, inumeráveis e insaciáveis pulos do sábado.

O primeiro tempo tinha acabado, o jogo permanecia 0 a 0 e eu ainda me mantinha tranqüilo, com a cabeça no lugar, com a mesma certeza absoluta de que o Grêmio venceria a partida. Assisti o segundo tempo pedindo a cabeça do então treinando do Grêmio, Mano Menezes. O time não jogava nada, demonstrava um futebol vergonhoso, enquanto o Náutico perdia chance atrás de chance de abrir o placar, e o técnico gremista deixava o craque do time, o jovem e desconhecido Anderson no banco de reservas. Não entendia como um treinador poderia ser tão cabeça dura a ponto de deixar o que tem de melhor fora do jogo, até que sua teimosia teve fim e ele colocou o guri para jogar.

O jogo começou a se tornar um pesadelo quando o lateral-esquerdo chileno Escalona foi expulso, por volta dos 30 minutos do segundo tempo. Ainda acreditava, mesmo com o Grêmio sendo sufocado pelo Náutico. O lance do jogo que fez com que meu mundo parasse aconteceu quase aos 40 minutos da etapa complementar. O jogador do Náutico chutou e a bola bateu no cotovelo do volante gremista Nunes, que estava na frente da área e o árbitro interpretou o lance como pênalti. Depois disso eu não soube o que fazer, a sorte de meu televisor de 20 polegadas com vídeo embutido foi que o que eu estava segurando e voou de encontro ao televisor era uma almofada e não algo pesado. Assisti ainda expulsão do Patrício e do Nunes que agrediram o juiz e logo em seguida do Domingos que jogo a bola para longe. Era o pior dos terrores, eu quando era criança era atormentado pelos filmes do Freddy Krueger, mas naquele momento o terror foi muito maior, aquele não se tratava de um jogo qualquer, nem mesmo de uma decisão, era uma vida, o tricolor de jeito nenhum poderia permanecer por mais um ano na segunda divisão, o time começaria a decair, e sabe lá quando subiria de novo à elite.

A partida permaneceu paralisada durante 25 minutos, corria boatos de que o Grêmio ia se retirar de campo e não deixaria o Náutico bater o pênalti, enfim, houve de tudo, e enquanto isso eu assistia àquele aglomerado de pessoas dentro do campo discutindo sem resolver a situação. E então se tomou a decisão final, o Náutico bateria o pênalti e o Grêmio com 4 jogadores a menos voltaria ao campo. Depois que a realidade voltou ao normal, eu sentei na minha cama, abracei e apertei outra almofada e mentalizei: “Pega Galatto”. Quando o jogador partiu para a cobrança e eu vi que a bola não entrou eu descontei novamente minha ira na coitada da minha televisão e saí correndo, pulando, gritando, berrando, possuído por alguma coisa que eu não sei dizer. Fui para a sacada, gritei, mandei meus vizinhos colorados do andar de cima que estavam fazendo festa lá para aquele lugar e tudo mais. Ouvi na seqüência meu pai gritando “gol do Grêmio”, cometi um ato de desrespeito, mandei-o calar a boca e parar de tirar sarro, então ele me chamou para ver o replay e eu não acreditei quando eu vi. O garoto de 17 anos, Anderson, que ficou quase a partida inteira na reserva fez o gol da vitória e da volta do tricolor para a primeira divisão.

Depois disso eu passei a lembrar de mais datas importantes e marcantes durante o ano, lembro dos aniversários, dos feriados e claro lembro do 26 de novembro, jamais poderia esquecer esse dia.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

A odisséia de morar sozinho: Prólogo

Sou um magro adolescente - por vezes pré-adolescente - de dezenove anos, quase vinte. Há um pouco mais de um ano eu comecei a atravessar as ruas mais depressa, isso por que saí da capital, fui para o interior e depois me aprofundei mais ainda no interior do Estado, recém tinha passado - por méritos pois estudei cerca de uma hora por semana - no vestibular.


Na primeira semana morando sozinho eu já não podia mais almoçar em casa, a pia estava congestionada e faltavam pratos e talheres limpos, então eu fui pela primeira vez a um restaurante, e de lá não saí mais. Bom, tive que sair por volta das onze da noite quando estavam fechando o local, me acharam no banheiro masculino sentando na privada fumando e ouvindo Bob Dylan. Minha primeira lição da odisséia de morar sozinho: Usar pratos descartáveis.


Só uso meias da cor cinza, é um costume que eu tenho desde criança, minha mãe sempre comprava meias cinza porque estavam todos os dias em liquidação e eu acabei me habituando, toda a vez que eu olho pro meu pé já enxergo cinza. Então na segunda semana fui obrigado a comprar uma vassoura pois já estava confundindo minhas meias com o piso, tudo na maior normalidade. Isso me fez passar o fim de semana inteiro pensando se valeria a pena arrumar um emprego, algo não muito desgastante, e contratar uma empregada para limpar e melhorar meu ambiente. Pensei demais e acordei na segunda-feira de manhã atrasado para a aula, deixei por isso mesmo.


C
omecei a fumar aos catorze, parei nos dezesseis e voltei aos dezessete. Até hoje foram incontáveis tentativas de deixar o cigarro, porém com a frustração que padeceu em minha cabeça decidi parar de parar. O pulmão é meu e eu já subornei um cirurgião para ganhar um novo em no máximo quinze anos. Mas fumar custa caro, corrói mais o bolso do que a respiração, por isso tive que começar a me acostumar a viver sem comer bolachinha recheada.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Amor, nerd amor

- Não me trata assim, por favor! Eu te dou o emule, o msn e o linux que tu quiser!

- Grr seu idiota, eu odeio o emule! Prefiro torrent! Sempre preferi torrent!

Depois dessa declaração ele voltou pra casa desiludido, como se um vírus tivesse penetrado em seu sistema e destruído todos os seus bytes de amor. Tinha certeza absoluta de que ela era louca pelo emule, e quando soube do contrário viu que ambos não tinham nada em comum.


- Foda-se! Vou limpar meu disco e não vou fazer nenhum backup!


Chegou em casa e livrou-se de todas as coisas que faziam com que se lembrasse dela. Começou apagando os logs e terminou formatando o computador.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Would you believe in a love at first sight?

Quando eu era menor, devia ter uns 4 ou 5 anos fui pela primeira vez a um casamento. Eram as bodas de um tio da minha mãe, que devia ter uns 40 anos.

Nesse casamento foi quando pela primeira vez um olhar com uma garota se tornara diferente. Não foi meu primeiro amor, mas foi aonde eu percebi que as garotas podiam ser bem mais divertidas de outra forma. Eu a olhava com intensidade e ela me retribuía os olhares, então demos as mãos e entramos na Igreja à frente dos noivos.

Lá dentro, nós continuávamos a nos olhar, de forma apaixonante para os mais velhos presentes na cerimônia, até mais apaixonantes que os próprios noivos, permanecendo de mãos dadas. Daria um longa-metragem. Mas isso não foi nada perto do que eu conheci depois no mesmo dia.

Entrei no clube onde foi feita a festa de casamento com meus pais. Não lembro da comida, nem de nada, apenas que após a valsa uma música começou a tocar e eu levantei da cadeira. Meus ouvidos nunca foram tão bem tratados como daquela vez, eu estava ouvindo em outra freqüência e pensando em outros planetas. Não entendia nada do que aquelas vozes queriam dizer, mas elas eram tão bem elaboradas, tão bem afinadas para os meus ouvidos que me assustei com a monstruosidade de seus timbres.

Mesclando essas vozes com um ritmo magnífico, empolgante e até dopante, observei as pessoas dançarem uma na frente das outras, sorrindo, cantando, com os olhares tão compenetrados, inventando novos passos que eu nunca tinha visto. Permaneci de pé, paralisado, até ela acabar, conhecendo meu verdadeiro primeiro amor. Foi a primeira vez que eu escutei Twist and Shout.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Desvario

Tava dando minha refletida rotineira, olhando para o horizonte, digo para o nada, através da janela da lavanderia. Eu costumo observar os telhados das casas e as janelas dos edifícios da redondeza à procura de algo, mas nunca deparei nada de interessante de madrugada. Essa noite estava cumprindo o protocolo de monotonia da minha vista até surgir um vulto preto sobre o telhado do vizinho.

Era escuro e distante, não conseguia distinguir o que era na verdade tal vulto, então resolvi usar meu superpoder de observador, o olho biônico, e averiguar do que se tratava o dito vulto. Ele andava de um lado para o outro, às vezes parava um instante e na seqüência retornava ao seu movimento aparentemente motor e involuntário de ir-voltar-ir-voltar. De repente surge aquele brilho que, confesso em um primeiro momento me assustou, mas vendo mais detalhadamente notei que era um gato preto, um simples felino boêmio divertindo-se madrugada à fora.

Fiquei encarando o bichano e percebi que também estava sendo encarado. Aquele brilho reluzente do olhar do felino vinha em minha direção e penetrava intensamente através da minha córnea, o meu olhar com o dele, refletindo um ao outro, e o reflexo transmitindo outro reflexo, e outro e outro. Nunca tinha visto um gato daquele porte, mirradinho, tão raquítico como uma criança somaliense anoréxica, porém, aparentemente, cheio de saúde e disposição.

O bichano continuava caminhando sobre os telhados e por alguns segundos dissipava-se na escuridão, deixando aquela cintilação intensa no mesmo lugar, como se fosse uma luz refletida de algum apartamento ou até de um poste.

Eu o encarava com o intuito de assustá-lo e afasta-lo para longe de mim, não por ser um gato preto, não acredito em superstições, e sim por que eu tenho tanta alergia à gatos que alguns fugazes segundos acompanhados por um em um lugar fechado pode fazer com que eu espirre durante todo o resto do dia. Até penso que a maneira mais fácil ou educada de alguém se afastar de mim, sem querer dizer o quanto minha presença incomoda é comprando um gato, ou até mesmo arrumando um emprestado.

E aquele felino continuava perambulando na penumbra, pra lá e pra cá, pelas superfície das telhas, com o mesmo olhar hipnotizante. Acabei por ficar ávido por esse gato preto, me mordendo de raiva por ter sido presenteado com tantas alergias. Até que me senti tão dominado por aquele brilho minúsculo e intenso que de alguma forma parecia que ele me chamava, com aquele feixe linear de luz transmutando-se em uma longa reta com um tesouro no final.

De repente acordei, sentado na janela, quase invadindo o telhado vizinho e me lembrei que a última vez em que eu subi em um telhado eu escorreguei e caí, ileso, mas caí, seco no chão. Desci pra dentro de casa e virei às costas, e quando foquei novamente o telhado vizinho nada havia, estava tudo de volta ao normal, com aquele vento soprando o nada, e me dei conta que aquele gato não passou de um fruto da minha imaginação, uma miragem. Aquele bichinho tão dengoso e carismático e ao mesmo tempo desagradável não existiu.

E a noite passada eu vi fotos de gatos e sonhei com gatos. Por que cargas d’água há gatos por tudo o que eu vejo?

terça-feira, 29 de maio de 2007

Impressões

O goleiro do time da cidade tinha um apelido desde pequeno, devido a seu grande sucesso de infância. Bafo. Bafo não perdia para ninguém nunca, foi considerado um mito pela galera do bairro, quem era amigo do Bafo considerava-se príncipe, até por que rei só tinha um, e o trono já tinha dono. Viraram os anos e o jovem goleiro passou a enfrentar alguns problemas, o primeiro foi encarado com extrema naturalidade, afinal não precisa ser bonito quando se é jogador de futebol, mas o mais grave estava na ambigüidade de seu apelido que não o trazia muitos dias de sol.

No ápice da juventude, aos 18 anos, um gigante robusto, já era titular, e como o XIII de Juvenal Crescêncio disputava a segunda divisão, as partidas limitavam-se as terças e sextas-feiras, deixando os fins de semana livres para a algazarra. A equipe era relativamente jovem, e os atletas dominavam a cidade, todos, sem exceção. Não, havia sim a exceção, pobre Bafo, nunca até hoje foi visto ao lado de um rabo de saia, sequer ganhou uma chance, as garotas tinha medo de seu apelido, também pudera né? E os engraçadinhos que questionavam sua sexualidade acabavam por herdar um olho roxo.

Pela incompreensão de seu apelido, Bafo começou a beber, que é o que geralmente fazem os homens da cidade quando estão sem garotas. O excesso de álcool baixou seu rendimento nos gramados e consequentemente seu salário. Com dificuldades financeiras, Bafo bebia cada vez mais e cada vez bebidas mais vagabundas, cachaça mesmo.

No final das contas, esqueceram o mito que Bafo foi considerado na época de infância, quando vencia a vila inteira nos jogos e nadava em um mar de figurinhas de todos os gêneros. Hoje em dia, Bafo está com 25 anos e todo o natal ele ganha um kit escova de dentes e flúor na cerimônia de amigo secreto do time de XIII de Juvenal Crescêncio.


Às vezes, nós temos uma impressão errada de certas pessoas e as tratamos da maneira que pensamos que elas são. É normal se tornar, na cabeça de quem te julga, aquilo que os outros pensam que você é, mas também há pessoas que mudam de verdade para todos. Aconteceu comigo, e vai acontecer de novo.

Humor: Morno